Caral: a rota da origem da civilização
Nesta edição do Explora Peru, Palmira nos conduz pelos vales costeiros ao norte de Lima, território onde surgiram algumas das cidades mais antigas das Américas.
PALMIRA ALTAMIRANO
Gerente | Séries em Grupo
palmira.altamirano@colturperu.com
Formou-se em Administração de Turismo e possui especialização em Gestão de Vendas pela Centrum PUCP Business School. Conta com mais de 30 anos de experiência na indústria do turismo.
Caral —Patrimônio Mundial da UNESCO— é o ponto de partida, ao lado de Bandurria, Peñico e Vichama, que ampliam a compreensão sobre essa civilização milenar.
O nosso Peru nunca deixa de surpreender. Desta vez, a viagem foi uma oportunidade para reconectar com o berço da civilização na América e conhecer de perto os avanços em sua preservação e valorização. Muitos de nós já conhecíamos Caral, porém o trajeto nos permitiu explorar novos lugares que agora estão mais acessíveis e mais bem interpretados, como o recém-aberto Peñico.
A apenas 200 quilômetros ao norte de Lima, depois de quatro horas pela estrada, chegamos aos férteis vales de Huaura e Supe. Esta terra — rica em aspargos, pimentas, algodão, milho, uvas e mangas — tem sido generosa há milênios e hoje permanece como testemunho vivo de sua vocação agrícola.
Caral e sua rede cultural
Quem nunca ouviu falar de Caral, a cidade mais antiga do continente, com mais de 5000 anos de história? Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2009, descobriu-se nos últimos anos que sua importância é ainda maior do que se imaginava, já que em seus arredores foram encontrados dezenas de lugares que estiveram ativos. De fato, não seria absurdo pensar que estamos diante de uma complexa rede cultural que transformou este litoral na verdadeira origem da civilização andina.
No entanto, além de Caral, toda a região está cheia de vestígios que contam a fascinante história de milhares de anos. Sítios como Bandurria, Vichama e Peñico — que estiveram ativos antes, durante e depois do apogeu de Caral — revelam a extensão de uma impressionante rede cultural que floresceu no litoral norte de Lima.
Dependendo do tempo e dos interesses do viajante, podem ser elaboradas múltiplas combinações para explorar esta região milenar. No nosso caso, tivemos a sorte de poder dedicar dois dias completos cheios de história, fotos inesquecíveis, comida deliciosa e, claro, excelente companhia.
Início do percurso
Nossa jornada começou cedo, seguindo a linha litorânea em direção ao norte. Nossa primeira parada foi a cidade de Chancay, que nos acolheu com o aroma de um clássico pão com chicharrón e um café quente e fumegante. Desde o alto, pudemos observar o impressionante novo Porto de Chanchay, considerado o mais moderno da América do Sul e que se tornou um ponto-chave para o comércio com a Ásia.
Bandurria: arqueologia às margens de um humedal
A apenas 30 minutos, mais ao norte, nos adentramos em Bandurria, um dos sítios arqueológicos mais antigos da costa, contemporâneo de Caral. Foi descoberto casualmente em 1973, quando a inundação causada por um sistema de irrigação fez emergir restos funerários e outros vestígios. Bandurria nos maravilhou especialmente pelo seu entorno: aqui, as pirâmides milenares estão cercadas pelas paisagens do Humedal El Paraiso, refúgio de dezenas de aves endêmicas e migratórias, como garças, galeirões, flamingos, gaivotas e, claro, as emblemáticas bandurrias. Esta é também uma parada obrigatória para os amantes do birdwatching.. Neste lugar deslumbrante, história e natureza se unem para oferecer um espetáculo inigualável.
O almoço foi no icônico Restaurante Tato, em Barranca. Seu famoso tacu tacu — crocante por fora, cremoso por dentro — foi o protagonista, acompanhado de delícias marinhas e uma vista relaxante do mar.
Peñico: uma descoberta recente
Com as energias renovadas, chegamos a Peñico. Durante séculos, permaneceu coberto pela areia até que, em julho de 2025, a arqueóloga Ruth Shady anunciou oficialmente seu descobrimento. A notícia deu a volta ao mundo.
Por volta do ano 1000 a.C., Peñico foi considerado tão relevante quanto Caral. Suas cerca de 18 estruturas incluem templos e praças cerimoniais, além de áreas residenciais. O mais surpreendente aqui é o que revelam as edificações: que a civilização Caral-Supe pôde enfrentar os desastres naturais baseando-se em conhecimento e desenvolvimento tecnológico, assim como em uma harmoniosa convivência com o entorno. Tudo isso lhes permitiu construir uma civilização complexa baseada na cooperação e no respeito pelo meio ambiente, em vez do conflito militar.
“Peñico confirma que, há milênios, já existia aqui uma civilização que valorizava o conhecimento e a cooperação em vez da guerra e dos conflitos.”
A jornada termina com um pôr-do-sol que ascendeu o céu com tons vermelhos, laranjas e amarelos. Fomos recebidos no Empedrada Lodge, uma fazenda encantadora gerenciada pela Casa Andina, onde o descanso foi reparador.
Caral: um retorno às origens
Na manhã seguinte, depois de um café da manhã com pãezinhos recém-tirados do forno, abacate e azeitonas, partimos rumo ao complexo arqueológico de Caral. Depois de apenas 30 minutos, finalmente nos encontramos diante de suas imponentes sete pirâmides principais.
Calcula-se que o apogeu da civilização Caral aconteceu entre os anos 3000 e 1800 a.C. Embora não usassem cerâmica nem armas, seus habitantes dominavam o planejamento urbano e construíram complexos monumentais impressionantes. Entre suas edificações, destacam-se as pirâmides escalonadas acompanhadas de praças circulares afundadas, que se supõe terem sido espaços de reunião, cerimônias e concertos rituais que reforçavam a conexão espiritual com a terra. Vale destacar que, devido ao seu sofisticado desenho, estas praças ofereciam uma acústica notável.
Sabe-se também que a população de Caral teve um vínculo especial com a música. Evidência disso são as flautas e cornetas de osso encontradas no sítio. Além dessa prática, está claro que tiveram um importante desenvolvimento em atividades como agricultura, pesca, astronomia e arquitetura.
Quanto ao seu desenvolvimento arquitetônico, um dos aspectos mais fascinantes são suas avançadas técnicas de construção antissísmica. Em uma região onde abundavam os sismos, Caral se manteve em pé graças ao uso de shicras,grandes sacolas tecidas com fibra vegetal e cheias de pedras que atuavam como elementos flexíveis capazes de absorver a energia dos movimentos sísmicos. Esse sistema, pioneiro no mundo, surpreende inclusive arquitetos atuais.
Vichama: relevos que contam histórias
Depois seguimos em direção à nossa última parada, Vichama, localizada em Huaura, bem perto do oceano Pacífico. Este sítio, com mais de 3800 anos de história, cativou-nos desde o primeiro instante com seus relevos de barro, únicos em toda a região. As figuras humanas, símbolos de fertilidade, cenas rituais e animais sagrados que representam estão tão bem preservados que parece que vão sair dos muros a qualquer momento.
Fomos acompanhados pelo arqueólogo responsável pelo sítio, que compartilhou as interpretações dos relevos: tempos de seca, mudanças climáticas e a resiliência de uma sociedade que enfrentou a adversidade criando arte e memória.
Entre pirâmides, praças e escadarias que preservam o inconfundível selo de Caral-Supe, os relevos de Vichama nos presenteiam com um olhar íntimo dos mitos, dos temores e das esperanças de uma civilização que, ainda hoje, continua falando conosco.
Encerramento do percurso
Toda esta experiência foi maravilhosa: boa sinalização, áreas de descanso, espaços para piquenique e banheiros limpos oferecem conforto e tranquilidade ao visitante. Mas, acima de tudo, o mais valioso são seus guias e arqueólogos apaixonados: estudiosos locais que compartilham seus conhecimentos com um orgulho contagiante.
Voltamos para casa maravilhados e admirando ainda mais o nosso país. Com uma logística simples e uma combinação perfeita de história, natureza e gastronomia, este destino ainda pouco explorado permite viver uma experiência autêntica e profundamente enriquecedora para todo perfil de viajante. Porque Caral e os sítios que a cercam não apenas narram a origem de uma civilização: fazem isso com uma força monumental que continua surpreendendo milhares de anos depois.