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Puno:
muito além do lago Titicaca

Puno costuma ser resumido no reflexo do Titicaca. No entanto, além do lago há uma região que respira história, com uma paisagem muito particular e exemplos únicos de cultura viva no Peru.

Esta crônica percorre templos, oficinas, encontros com pessoas maravilhosas e paisagens sagradas, revelando uma terra ainda por explorar — profundamente autêntica — no coração do sul andino.

Acompanhe Roser em um trajeto que revela a dimensão mais profunda do altiplano.

Desde a área de Gestão de Produto, entendemos que o verdadeiro valor de Puno vai muito além de suas visitas clássicas. Nosso papel é acompanhar a criação de rotas menos exploradas e transformá-las em experiências coerentes, responsáveis e conectadas com o território. Sob nossa abordagem B Corp, cada roteiro busca ampliar a visão do viajante e, ao mesmo tempo, gerar impacto positivo e relações sustentáveis no entorno. É com essa premissa que começa este percurso: descobrir um altiplano que vai muito além do Titicaca.

Chego pela manhã a Puno. A cidade descansa às margens do Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo. Segundo a lenda, de suas águas emergiram Manco Cápac e Mama Ocllo, fundadores do Império Inca. Aqui, o tempo parece fluir entre o sagrado e o cotidiano: esta região é território de sincretismos, de profunda devoção e de celebrações que entrelaçam a cosmovisão andina com a herança colonial.

Arte, fé e sincretismo às margens do Titicaca

Meu trajeto começa mergulhando na arte festiva, um dos pilares da identidade puneña. Em uma visita reveladora, um bordador de vestimentas tradicionais me explica a complexa simbologia de danças típicas como a Diablada e a Morenada, o que me ajuda a entender que cada peça de vestuário reflete história, hierarquia e memória coletiva. Em seguida, um mestre mascareiro compartilha comigo seu trabalho extraordinário, que materializa a mestiçagem cultural altiplânica. Diabos, arcanjos e personagens híbridos representados em suas máscaras testemunham a fusão entre o imaginário europeu e a tradição andina.

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ROSER STRATER

Diretor de Gestão de Produtos
roser.strater@colturperu.com

A jornada culmina na Basílica Menor da Catedral de Puno, declarada Patrimônio Histórico Cultural da Nação e o único edifício do século XVIII da cidade que ainda cumpre o propósito para o qual foi concebido. Construída sobre um antigo templo inca — no espaço conhecido como Supay Kancha —, sua fachada esculpida em pedra sintetiza o espírito do altiplano: sereias com charangos, pumas guardiões e santos convivem em um barroco andino profundamente simbólico. A abóbada conduz meu olhar até o altar-mor, dedicado à Imaculada Conceição; e, do campanário, a vista da cidade e do lago Titicaca revela a relação íntima entre fé, território e história. Para além de sua dimensão religiosa, este lugar se consolida como um dos espaços que melhor valorizam o patrimônio histórico de Puno e fortalecem a proposta cultural de seu centro urbano.
Espiritualidade ancestral e memória da mineração

No dia seguinte partimos rumo ao Inca Tunuhuiri, um dos espaços mais enigmáticos e menos conhecidos da região. Localizado próximo do povoado de Ichu, este centro cerimonial pré-inca apresenta uma vista impressionante do lago Titicaca, que se estende diante de nós como um espelho azul entre as montanhas. O sítio arqueológico preserva muros de pedra arenisca, blocos antropomorfos e terraços que sugerem sua relevância ritual. Embora suas origens remontem à cultura Pucará (500 a.C.–400 d.C.), sabe-se que foi posteriormente reutilizado pelos incas. Ainda hoje, moradores locais realizam suas oferendas à Pachamama e aos apus, mantendo vivo seu legado místico.

De volta à cidade, um almoço tranquilo me prepara para a próxima visita: San Luis de Alba, um assentamento minerador do século XVII que, graças à exploração da prata, foi fundamental para o surgimento da cidade. Entre vestígios coloniais e a paisagem aberta do Altiplano, descubro como esse metal precioso atraiu poder, evangelização, e, sobretudo, uma profunda transformação social.

Paisagens sagradas e comunidades do profundo altiplano

Ao amanhecer, me espera uma das rotas mais completas do altiplano, uma experiência que combina história, arqueologia, natureza e cultura viva sob uma perspectiva diferente. Partimos rumo a Cutimbo, complexo arqueológico onde as chullpas — torres funerárias pré-hispânicas construídas em pedra — se erguem sobre um planalto aberto e silencioso. Muitos associam as chullpas do altiplano com Sillustani; no entanto, em Cutimbo, a experiência é diferente: mais íntima, mais pausada, quase privada, já que o fluxo turístico é mínimo.

A caminhada até o topo, de cerca de 25 minutos, acontece entre queñuas (Polylepis spp.), árvores nativas dos Andes conhecidas por crescer em grandes altitudes — entre 3500 e 5000 metros — e cujos troncos se desprendem em finas lâminas, como se a paisagem também quisesse contar sua própria memória. Ao chegar ao planalto, a vista é realmente surpreendente: grandes chullpas esculpidas com precisão se erguem e dominam uma paisagem de montanhas e céu azul. A energia poderosa do lugar, perceptível desde o primeiro momento, é reforçada pela magnitude arquitetônica dessas criptas e por sua conexão com as culturas pré-hispânicas.

Mais adiante, o Bosque de Sacuyo me surpreende com suas formações rochosas de tirar o folego. O corredor pétreo impacta pela sua altura e pelo silêncio, já que o local abriga fauna silvestre que se move discretamente entre a área. Os monólitos despertam tanto a vontade de fotografar quanto de simplesmente sentar para meditar, enquanto se contempla a perfeição desta obra da natureza.

No entanto, a experiência mais comovente do dia acontece na comunidade de Ayrumas Carumas. Ao chegar, somos recebidos com uma calorosa acolhida e aprendemos sobre seus tecidos tradicionais e o trabalho associativo que desenvolveram. Essa visita é um testemunho de como o turismo pode se tornar uma verdadeira ferramenta de impacto positivo e sustentabilidade real.

Junto aos moradores e uma simpática manada de lhamas, iniciamos nossa caminhada até o topo do Qawrani Tiyi, um local sagrado localizado no ponto mais alto da montanha principal da comunidade. Para chegar, atravessamos o Quñuna, uma estreita passagem rochosa parecida a uma caverna e onde a tradição convida a fazer um pedido. Do alto, a paisagem e os grandes paredões de pedra surgem como esculturas do tempo, moldadas por séculos de vento.

O barroco andino e os gigantes do altiplano

Este quarto e último dia me convida a explorar o lado noroeste do altiplano.

A primeira parada é em Lampa, fundada em 1548 e um dos centros mais relevantes do altiplano durante o período colonial. Seu traçado e arquitetura em pedra vulcânica rosada revelam o esplendor que alcançou entre os séculos XVII e XVIII. Começo pela Igreja de Santiago Apóstolo, edificada no final do século XVII e considerada uma das expressões mais singulares do barroco andino no sul do Peru. O templo se destaca pelo uso integral de materiais locais e por sua cobertura de telhas cerâmicas vitrificadas, pouco comum na arquitetura alto-andina, que reflete a luz com um brilho particular.

No interior, encontram-se altares e pinturas vinculadas à escola cusquenha, além das catacumbas coloniais. Ali está uma réplica da Pietà de Michelangelo; um detalhe que revela como modelos artísticos europeus circularam e foram reinterpretados nos Andes, integrando-se à identidade cultural da cidade.

Em seguida, o caminho segue até a floresta de Puyas de Raimondi (Puya raimondii), espécie endêmica dos Andes peruanos e considerada a bromélia mais alta do mundo. Pode ultrapassar os dez metros de altura e produzir uma inflorescência com milhares de flores. O mais extraordinário, porém, é seu ciclo de vida: pode levar entre 40 e 100 anos para florescer, e o faz apenas uma vez antes de morrer. No altiplano, esta planta é vista como símbolo de resistência e paciência, uma metáfora viva do mundo andino.

O altiplano muito além do lago Titicaca

Quando chega o momento de partir, levo comigo a sensação de ter percorrido um território onde as épocas convivem sem se apagar. Aqui, a pedra guarda memória, o lago sussurra mitos antigos e cada comunidade mantém viva a tradição no presente.

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